DISCURSO SEM A LETRA  "A"

 

 

 

Este é o curioso discurso do filólogo baiano Antonio Sá proferido em 1915 em sua posse no Instituto Histórico da Bahia. Não usa uma vez sequer a letra "a" !

 

 

    "Meus ilustres e digníssimos consócios.
    Meus senhores.
    Por mim, humilde membro que vou ser deste Instituto, eu vos direi sem orgulho em que me occulte: errou no que pretende, perdeu no que collime esse que de mim muito esperou em prol deste lusido gremio, que, sem o meu debil concurso, vive com brilho e vence com fulgor.
    Sim.
    Porque eu que neste momento vos dirijo um verbo simples e despretencioso, cumprindo somente o desejo de exprimir o sentimento de jubilo de que me possuo, por ser tido no vosso doce e utilissimo convivio; no meu viver, quer como homem publico, quer como efficiente de um tempo ido, sem dons que me nobilitem, sem luzes que me guiem no preente o rumo do futuro; em pouco, em muito pouco mesmo, posso proteger o curso luminoso deste conjuncto de homens eminentes, deste gremio benemerito, por isso que, nem de leve, fulgem em mim resquicios de primor.
    Fizestes, escolhendo-me vosso consocio, o que só costumo ver nos espiritos superiores e que, por isso mesmo, surtem seus vôos por sobre miseros preconceitos.
    Eis o motivo por que eu me deixei prender nos elos do vosso gentil convite, e devo dizer-vos, sincero, quem fui, quem sou e quem serei, vencendo o portico luminoso deste templo repleto de fulgores.
    Quem fui ?
    O debil rebento de um tronco bom e, sobretudo honesto, em cujo viver de espiritos eleitos só virtudes vi florirem e vicios nem de longe pretenderem prender.
    Eduquei-me sob o influxo do bem e tive por complemento dos meus modestos e humildes genitores um excellente mestre conhecido de todos vós, que tem sido entre nós erguido em mil louvores, que nem lhe podem dizer seu merecimento entre os velhos, entre os moços e entre os que recebem no presente o brilho do seu espirito selecto, fulgindo como um sol que incide nos pequeninos cerebros, sequiosos de luz.
    Do collegio, de que conservo vivo o exemplo do bom e do honesto, fui vencer o tirocinio superior , onde, por muito feliz, entre docentes e condiscípulos, conservei desde o inicio, ouvindo Fillinto, Leovigildo e Guerreiro, um nome sem deslizes, que desgostos me trouxesse, no meio de muitos estudiosos como eu.
    Tenho por mim neste recinto quem vos pode dizer se me exprimo correcto neste ponto.
    Depois, colhido o louro de um torneio vencido, penetrei o mundo de illusöes, suppondo, ingenuo que fui, fruisse o meu viver num sorrir.
    Dentro em pouco, porém, vi que o sorriso nos moços nem sempre é o prenuncio de um futuro venturoso, e, sim, um como prologo ou inicio de um soffrer continuo, de um existir repleto de decepçöes e mil desgostos sem fim.
    Sem que deperte dores no recesso do meu peito ferido, eu vos direi: funebre dobre de sino, ouvido por mim, filho estremoso, pelo espirito desse que me deu o ser e que se foi, rumo do céo, morrendo como um justo, entre outros golpes bem fundos, foi o primeiro que me fez sentir os negrores deste mundo em que vivemos.
    Soffri e soffri muito com o ter perdido o meu ecellente e nobre genitor.
    Superior, porem, eu fui vencendo os obices do sentimento, tendo como tive e felizmente tenho consorte e filhos, meus enlevos, que me impellem, cheio de fé e de vigor, no trilho em que me vou conduzindo neste orbe, rico de dores, e pobre, muito pobre mesmo, de momentos bons e felizes como este.
    Isso é que fui.
    Quem sou ?
    Um pequenino servo de Themis que fiz do direito em si o ponto em que reside o immenso bem dos homens, e que Deus quiz fosse tido por nós como virtude de virtudes, e que delle mesmo nos veio por intermedio do conhecimento que todos nós devemos ter do direitos e deveres proprios, bem como dos de outrem.
    Eu vos disse de principio que tinheis feito de mim um juizo immerecido, escolhendo-me vosso consocio.
    Disse e repito.
    Com o serdes gentis, ergueste-me, um homem simples que sempre fui, nos estos de um outro indivíduo, desejoso de ter nome e ter estudos que o elevem, que o dignifiquem, por meio dos conhecimentoss scientificos, vendo, ouvindo, lendo, como de cerebro sem luz, seguisse sem temores, no intuito de vencer.
    Eis o que sou.
    Quem serei ?
    Se fui um zero, como vos disse, hoje sou um número entre vós, que, no futuro hei de escrever com orgulho todo meu, por me sentir no vosso doce e superior convivio.
    Flue no meu ser um jubilo incontido, por me ver neste recinto, todo luz, todo bello, todo proveito, como si templo se celebre sob os meus olhos o novo surgir de um sol no meu espirito, sequioso de lume que me excite o empenho de viver no centro puro em que me detendes com os grilhöes de vossos profundos conhecimentos.
    Tudo eu terei, recebendo do vosso ensino o que deixei de ter em outros tempos, quer porque o desleixo me tolhesse, quer porque inconsciente ou cego eu estivesse.
    Eu venho beber comvosco em fonte cujo espelho reflecte os melhores dons contidos neste solio, no mesmo berço de Ruy, o vinho scientifico que me inebrie o intellecto, sorvendo-o em copos de ouro.
    Eu venho com os olhos fitos neste horizonte cheio de luz.
    E vendo os seus primores, sentindo-lhe os nobres effeitos, noto que, por isso mesmo tudo menos eu, concorre com o seu brilho em beneficio deste gremio, cujos porticos, neste momento, penetro como socio.
    Sinto-me um homem differente, sinto-me muito bem, como si de mim se fosse um outro eu e o proprio resurgisse, revivesse sob o influxo poderoso dos vossos fecundos emprehendimentos.
    0 meu intimo sentir, que os vossos ouvidos percebem nos breves termos do meu singelo dizer, é tudo o que de sincero reside nos refolhos do meu peito, repleto desse mesmo vigor e nobres voliçöes com que tendes erguido o Instituto Historico" que de mim pode ter somente fogosos e effusivos elogios.
    Tendes nisso o meu futuro proceder.
    Dizem que tudo pode quem quer.
    Todo o homem consegue o que pretende deste mundo, persistindo firme no desejo, mormente si possuir os requisito de intellecto, si bem que pobres como os meus.
    Neste meu discurso, producto exclusivo de um esforço ingente que despendi como noviço que sou de vosso culto, vêde somente o designio que nutri de esprimir os meus sentimentos sem o emprego de um symbolo de todo preciso no modo de dizer ou de escrever o que os nossos espiritos concebem e podem produzir.
    Quiz, testei e consegui que me ouvisseis por minutos, sem que dissesse o primeiro signo com que se expoem os estylos.
    Revele-se-me o inepto intento.
    Perdôe-se-me o estulto proposito.
    No intuito que tive e bem vêdes que cumpri, louve-se menos em mim o exquisito escopo, que o meu illustre e glorioso mestre doutor Ernesto C. Ribeiro, que recebe de um seu discipulo, num excêntrico discurso, os meus intimos encomios, pois delle eu só tenho tido luzes e conselhos com que pudesse ser recebido neste instituto.
    Elle o emerito cultor do verbo que o celebrisou entre os profundos conhecedores do portuguez, que encontre no meu gesto o empenho que tive de querer ser-lhe gentil, disendo-lhe, de publico, o muito bem que lhe quero e o sincero respeito que lhe voto.
    Consocios.
    Sêde indulgentes comigo.
    Recebei-me como se eu fosse um proscripto que buscou o recolhimento deste tecto, em que vejo luzindo os espiritos nobres dos conselheiros Torres e muitos outros de escol; do memo modo que crio o desejo certo e imperecivel de tudo emprehender em prol deste instituto, dos seus beneficios presentes e futuros, do seu brilho eterno, do seu progresso vencedor, do seu indefectível merecimento, do seu 1uzente fim, do seu destino vigoroso, conhecidos, "Urbi et Orbi" como sobremodo uteis e por sempre proveitosos.
    Tenho concluido."