O número e
Começaremos essa história com outra: a
dos logaritmos. Quem da velha-guarda não se lembra das famosas tabelas de
logaritmos? E das famigeradas réguas de cálculo? Coisas jurássicas para a
geração atual!
Logaritmo: palavra de origem grega formada de lógos (razão, evolução, discurso) e arithmós (número). Logarithmo
significa, literalmente, a evolução de um número. O símbolo log, contração de logarithm,
é devido ao astrônomo Kepler.
Os logaritmos foram inventados por John Napier (1550-1617). Seu objetivo era obter uma forma menos
trabalhosa de fazer cálculos. E, na época, uma multiplicação entre números
grandes, por exemplo, era um verdadeiro sacrifício. Coisa de sábios.
Qual foi a idéia de Napier...
ou Neper?
Neper foi um nome
pelo qual ele também ficou conhecido, e como nos foi ensinado (logaritmos neperianos) – o que me fez lembrar de um amigo dos tempos
de faculdade, um nordestino arretado, que sempre
pronunciava “néparianos” e cujo apelido acabou ficando
Népa. O mais interessante é que no ano seguinte a
essa consagração surgiu outro nordestino com a mesma dificuldade. Não deu
outra: Népa 2.

John Napier
Voltemos ao Neper
original, que, mesmo sendo um rico escocês, fazia coisas mais interessantes do
que se encharcar com whisky, e que era também uma pessoa muito ardilosa.
Conta-se que, desconfiado de que estava sendo roubado
por um de seus empregados, ordenou-lhes que passassem a mão sobre um galo preto
num quarto escuro, dizendo que o animal, posteriormente, identificaria o
ladrão. Acontece que Neper, astuto matemático, havia
passado fuligem no galo e, ao saírem os empregados do recinto, pediu-lhes que
mostrassem as mãos, identificando o culpado – o único que estava com as mãos
limpas...
Vamos tentar tornar palatável aos não-matemáticos
outra idéia “ardilosa” de Neper para inventar os
logaritmos, com um exemplo bem simples.
A idéia básica era obter o resultado de uma
multiplicação através de uma operação mais fácil – a soma.
Sabemos que para calcular o produto de
potências de mesma base somamos os expoentes, como no exemplo:
22
x 23 = 25
Vejamos, então, o procedimento básico através da
tabela abaixo:
|
N |
1 |
2 |
3 |
4 |
5 |
6 |
7 |
8 |
9 |
10 |
|
2n |
2 |
4 |
8 |
16 |
32 |
64 |
128 |
256 |
512 |
1024 |
Na linha superior temos os expoentes e na inferior o
resultado de 2 elevado ao respectivo expoente.
Então, para
multiplicar 16 x 64, por exemplo, somamos os respectivos expoentes 4 e 6,
obtendo 10. Verificamos em seguida qual o número correspondente ao 10, e
chegamos ao resultado 1024.
A linha de
cima é a dos logaritmos na base 2 e a de baixo, a dos respectivos antilogaritmos.
Fácil? Sim, mas as coisas não foram assim
tão simples. Nunca são.
Neper usou como base 0,9999999 (uma coisa muito esquisita
para os não-matemáticos e até para os sim-matemáticos). Os detalhes dessa
escolha ficam para os mais interessados pesquisarem. Aqui espantaria boa parte
de leitores.
O fato é
que, com essa base, Neper construiu suas tábuas de
logaritmos e publicou um tratado: Mirifici logarithmorum canonis descriptio (Descrição do maravilhoso cânone dos
logaritmos).
Posteriormente, outro matemático, Henry Briggs (1561-1631), foi visitar Neper
e sugeriu o uso da base 10. Pronto: ficou criado o logaritmo decimal, cujas
tabelas (“dos Irmãos Maristas”) todos colegiais de antigamente tinham, com a
notação log N significando logaritmo de N na base 10.
E, na seqüência, depois do logaritmo decimal,
ensinavam-se logaritmos noutras bases, em especial o famoso ln
N, significando logaritmo natural ou logaritmo na base e, ou, ainda, logaritmo neperiano (népariano, segundo os amigos nordestinos).
Com base nos conceitos
de Neper, foram criadas as famosas réguas de cálculo,
utilizadas até mais ou menos meados da década de 70. Hoje são peças de museu.

Régua de cálculo “Aristo”
E aqui
começa a nossa breve história do intrigante número e.
Para apresentar o e, vamos supor uma situação bastante hipotética.
Imagine que um banco pague juros de 100%
ao ano. Eu não falei que era uma situação hipotética? Mesmo assim, vamos fazer de
conta que existe um banco com essa maravilhosa generosidade.
Após um ano,
teríamos o montante de R$ 2,00 para cada R$ 1,00 aplicado.
E se, com uma generosidade inexplicável, os juros
fossem creditados semestralmente, ao final de um ano teríamos R$ 2,25. Um
sonho!
A expressão
para esse cálculo é a seguinte:
(1 + 1/n)n
= (1 + 1/2)2 = 2,25
Para o crédito ser trimestral, temos n = 4 e o
resultado é 2,44141.
Vejamos
alguns resultados para diversos valores de n na tabela abaixo.
|
n |
(1 + 1/n)n |
|
1 |
2 |
|
2 |
2,25 |
|
3 |
2,37037 |
|
4 |
2,44141 |
|
5 |
2,48832 |
|
10 |
2,59374 |
|
50 |
2,69159 |
|
100 |
2,70481 |
|
1.000 |
2,71692 |
|
10.000 |
2,71815 |
|
100.000 |
2,71827 |
|
1.000.000 |
2,71828 |
|
10.000.000 |
2,71828 |
A “loucura
total” seria calcular quanto seria o resultado para o crédito instantâneo, ou
seja, com n tendendo ao infinito.
Esse limite
é um número irracional e transcendental chamado número e (número de Euler).
Um número é irracional quando não pode ser colocado
na forma a/b com a e b inteiros. É transcendental
quando não pode ser resultado de uma equação polinomial com coeficientes
inteiros do tipo: axn + bxn-1 + ... + z = 0
Em termos matemáticos:

e = 2,71828182845904523536028747135266...
E nunca termina.
Quem efetivamente calculou o número e foi Leonhard Euler, e dizem que a designação decorre da inicial de seu
sobrenome, mas também existe a versão de que o e se deva à inicial de “exponencial”.
Esse número é a base dos logaritmos neperianos.
E se aquele banco generoso quisesse creditar juros
instantâneos à sua aplicação de R$1,00, a 100% ao
ano, você teria ao final de um ano o valor de:
R$ 2,71828182845904523536028747135266...
Ou, o que é mais provável, R$ 2,71, deixando aquela montanha de
decimais ao banco. Afinal, esse banco merece!
Vamos, pois, ficar atentos à publicidade. Quem sabe não aparece um
banco assim?
e=2,71828182845904523536028747135266249775724709369995957496696762772407663035354759451382178525166427...
Existem, entre outros, dois
especialmente intrigantes: p e i.
p = 3,14159... Também transcendental.
i = Ö-1 porque i foi o símbolo adotado por Euler para a raiz quadrada de -1.
E olha só o que o Euler
também conseguiu – uma correlação entre
eles:
eiπ + 1= 0
Mas isso já é coisa para os efetivamente matemáticos...
