Homenagens paralelas

 

 

 

Homenagens paralelas

 

Adalberto Nascimento

 

 

Em São Paulo existem duas vias famosas com traçados quase que paralelos. Estamos nos referindo à Avenida Rebouças e à Rua Teodoro Sampaio.

 

A maioria dos paulistas (e paulistanos), se não as percorreu, delas ouviu falar. Todavia, essa maioria não sabe quem foram essas pessoas. Infelizmente é assim que as coisas funcionam neste nosso Brasil desmiolado.

 

O que pouca gente sabe é que ambos foram engenheiros e negros. Ou, como agora se diz, “afro-descendentes”.

 

A Avenida Rebouças é uma homenagem ao engenheiro Antonio Pinto Rebouças, provavelmente em decorrência da fama do irmão, também engenheiro – André Pinto Rebouças. Este, sim, o mulato famoso formado pela Escola Militar e que, segundo o professor Silva Telles da USP, em seu livro História da Engenharia no Brasil, foi o primeiro homem não branco em nosso país a conquistar diploma de engenheiro e um dos mais notáveis professores, senão o mais notável, a ministrar aulas na Escola de Engenharia do Rio de Janeiro.

 

André Pinto Rebouças, que nasceu em 1838 em Cachoeira, Bahia, além de engenheiro, foi também um talento multidisciplinar. Era "matemático, astrônomo, botânico, geólogo, industrial, moralista, higienista, filantropo, poeta e filósofo", na definição do amigo e correspondente Joaquim Nabuco. Favorável à libertação dos escravos, engajou-se em 1880 na campanha abolicionista. Monarquista convicto, exilou-se voluntariamente após a proclamação da República, seguindo o imperador D. Pedro II. Morreu em 1898, em Portugal, sem que se saiba se por homicídio ou suicídio.  Em sua homenagem temos o famoso Túnel Rebouças no Rio de Janeiro, atualmente palco de tiroteios e outros eventos emblemáticos da falta de segurança nacional.

 

Por outro lado, literalmente falando, temos a rua Teodoro Sampaio (não confundir com a dupla sertaneja Teodoro e Sampaio).

 

Teodoro Sampaio nasceu em 1855, também na Bahia, filho de mãe escrava e de um padre. Formou-se engenheiro em 1877, no Rio de Janeiro. Viveu e trabalhou em São Paulo (1886 - 1903), participando, dentre outras coisas, da fundação da Escola Politécnica, da Cervejaria Antarctica e da criação do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo. Dirigiu os trabalhos de abastecimento e saneamento do Estado e, antes desses fatos, na condição de "primeiro-ajudante" do geólogo Orville Derby (diretor da Comissão Geográfica e Geológica do Estado de São Paulo), foi responsável pela primeira expedição de exploração dos rios Itapetininga e Paranapanema.

 

Segundo o que se discursou na Academia Brasileira de Letras, após a sua morte em 15/10/1937, Teodoro Sampaio foi um "homem de letras" e, "além disto, cientista emérito, entre os maiores engenheiros do país, insigne tupinólogo e historiador dos mais eminentes".

 

A cidade de Teodoro Sampaio, no Pontal do Paranapanema, tem esse nome em homenagem ao ilustre engenheiro.

Tudo isso me fez lembrar sobre os muitos anos em que fui professor. Contabilizo nos dedos de uma mão os “afro-alunos”. Tenho certeza de que hoje o nosso país seria melhor, se oportunidades houvesse para outros tantos Rebouças e Sampaios... Mesmo que em duplas sertanejas.